Por: Daniele Madureira/BBC
News Brasil
Aos
48 anos, o diretor geral da empresa de pesquisas Euromonitor no Brasil, Marcel
Motta, ainda se lembra do seu principal sonho de consumo 30 anos atrás. Eu
queria um carro, para ter a liberdade de ir e vir e encontrar meus amigos,
diz. Hoje,
a sua filha de 13 anos está longe de pensar na carteira de habilitação como
meta, mesmo porque ela pode se conectar online aos amigos a qualquer momento,
de qualquer lugar do mundo.
No
ano passado, o levantamento Mobility Survey, da própria Euromonitor, mostrou
que, na chamada geração Z, nascida a partir de 1995, 60% usa o transporte
público e 33% opta por táxi ou serviços de aplicativos como Uber - mesmo que
64% deles tenha alguém da família (ou eles próprios) com carro na garagem. No
caso dos Millenials (nascidos entre 1980 e 1994), o carro está em 83% das
residências, mas 68% usa o transporte público e 47% prefere táxi ou Uber para
se deslocar. O
exemplo na família de Marcel Motta, corroborado por pesquisas, ilustra um dos
principais motivos por trás da saída da montadora Ford no Brasil anunciada na
segunda (11). Após
102 anos no país, a multinacional americana decidiu interromper a produção no
Brasil, que passará a importar automóveis da Argentina e do Uruguai. Com o
fechamento das suas três fábricas no país (Camaçari-BA, Taubaté-SP e
Horizonte-CE), cerca de 5 mil trabalhadores serão demitidos e a maioria das 350
concessionárias da marca deixará de existir. Oficialmente,
os motivos para a decisão de sair do Brasil foram a continuidade do ambiente
econômico desfavorável e pressão adicional causada pela pandemia de
covid-19, mas a sua perda de competitividade no Brasil - um país onde a montadora
chegou a fundar em 1928 uma cidade no interior do Pará, a Fordlândia, para
explorar as seringueiras que abasteceriam suas fábricas com borracha - é
apontada por analistas como o principal motivo para jogar a toalha. Nos
últimos cinco anos, a companhia perdeu espaço no país para as asiáticas Hyundai
e Toyota: sua participação nas vendas caiu 10,4% em 2015 para 7,1% em 2020. Em
2019, anunciou o fechamento da sua fábrica de caminhões em São Bernardo do
Campo (SP) - berço do PT, onde os metalúrgicos guiados por Luiz Inácio Lula da
Silva foram percebidos como uma classe social e política nos anos 70 e 80. Mas
o encerramento das operações da Ford no Brasil vai muito além de uma disputa de
mercado. É um ponto de inflexão que representa um novo comportamento da
sociedade guiado pelas novas gerações, que desejam mais usufruir um serviço do
que ter um bem - daí o crescimento do uso de aplicativos de transporte frente
ao declínio da compra de automóveis. De
acordo com a associação dos fabricantes no Brasil, a Anfavea, serão produzidos
2,5 milhões de veículos este ano, uma taxa de ociosidade de 50% em relação à
capacidade instalada. Em 2020, as montadoras tiveram a produção mais baixa em
17 anos, atingindo 2 milhões de unidades, com a pandemia do novo coronavírus só
impulsionando um cenário que já era ruim. A
sociedade da terceira década do terceiro milênio é completamente diferente
daquela que Henry Ford procurou incentivar em 1903, a partir da criação da
fábrica de automóveis: seu modelo de produção, em larga escala, buscava atender
uma sociedade de consumo que se formava e que nas décadas seguintes cresceu
exponencialmente. Mas hoje o consumo está saturado e a discussão em voga é a
reciclagem, a partir da compra de roupas e eletrônicos usados, por exemplo. Da
mesma forma, o modelo de trabalho fordista, pautado pela disciplina na linha de
produção, onde cada um faz apenas o que lhe compete, já não encontra eco em uma
sociedade em que a riqueza está pautada na disseminação digital do
conhecimento. A
revolução tecnológica que vivemos é muito mais do que uma etapa da revolução
industrial,
diz Ladislau Dowbor, economista e professor titular de pós-graduação da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Existe uma força
reorganizadora e geradora de novas estruturas que caracteriza a revolução
digital, diz ele, que acaba de lançar o livro O Capitalismo se Desloca
- Novas Arquiteturas Sociais (Edições Sesc). Dowbor
destaca o quanto a sociedade está hoje muito mais informada, conectada e
colaborativa do que aquela que viu nascer as grandes montadoras. Passamos da
terra à máquina e da máquina ao conhecimento, diz ele. O grande eixo
transformador é que a tecnologia é hoje o principal fator de produção. Não
por acaso, a lista das empresas com maior valor de mercado do mundo é
basicamente formada por gigantes da tecnologia, como Apple, Alphabet (dona do
Google), Microsoft, Amazon e Facebook. Daí
o recuo das grandes montadoras - o veículo como símbolo de status pessoal já
não faz tanto sentido para quem tem menos de 40 anos. Segundo a pesquisa Lifestyle
Survey da Euromonitor, que aponta algumas preferências dos consumidores,
separados por gerações, em diversos setores de consumo, em 2019, 56% dos
millenials no Brasil concordavam que era melhor gastar dinheiro em experiências
do que em comprar coisas. Em 2020, mesmo com todo o impulso ao comércio
eletrônico provocado pela pandemia, esse percentual subiu para 62%. É o que
explica o surgimento de negócios como o Airbnb: você não precisa comprar a casa
dos sonhos, basta alugá-la por uma temporada. Entre 2019 e 2020, a disposição
em comprar produtos de segunda mão em vez de algo novo também cresceu, mas em
menor proporção: de 35,5% para 37,5% dos jovens nessa faixa etária, segundo a
Euromonitor. É o tipo de interesse que fez surgir a plataforma de brechós
Enjoei, que abriu o capital em novembro e levantou R$ 1,13 bilhão na B3. Esse
tipo de comportamento entre os mais jovens é cada vez mais comum em todo o
mundo, diz Marcel Motta, da Euromonitor. É o que justifica o uso de
veículos compartilhados, ou o aluguel de veículos para ocasiões especiais, no
lugar da compra de um carro, afirma. Dessa forma, eles não precisam se
preocupar com seguro de carro, custos de manutenção, estacionamento ou deixar
de beber se forem a uma festa.

O executivo, porém, destaca um diferencial entre os millenials do Brasil e os da Europa ou dos Estados Unidos. No exterior, o salário de entrada dos jovens no mercado de trabalho é de quatro a cinco vezes maior do que no Brasil, afirma Motta. Ou seja, no Brasil, a compra do carro para quem está no início da vida profissional é uma realidade distante para a maioria. Os jovens consumidores, especialmente no exterior, têm pautado os caminhos da indústria automobilística - cada vez mais interessada em entregar um serviço e não simplesmente um produto acabado. A Ford Lab, no Vale do Silício, por exemplo, faz testes com veículos autônomos, que dispensam o motorista. A preocupação das novas gerações com a sustentabilidade do planeta também levou as grandes fabricantes a buscar o carro elétrico. Este é um investimento alto, daí não ser possível para as montadoras insistirem em mercados pouco rentáveis, como o Brasil, se os recursos estão escassos, diz Motta.
Na opinião da consultora Betânia Tanure de Barros, a indústria automobilística, assim como muitas outras, vivencia um momento de ruptura para se adaptar rapidamente à nova geração de consumidores. Já existem estudos que apontam que, dentro de 10 a 15 anos, as montadoras podem representar a nova indústria do tabaco se não mudarem o seu modelo de negócio, diz ela, doutora em psicologia e especialista em cultura organizacional.
A troca dos modelos a combustão pelos veículos elétricos, não poluentes e muito mais econômicos, é um caminho sem volta e em sintonia com o conceito ESG - governança ambiental, social e corporativa, na sigla em inglês, que busca medir o impacto de uma empresa ou negócio na sociedade. As premissas ESG estão cada vez mais no radar de investidores em todo o mundo e ditam o caminho do dinheiro, diz Betânia. O próprio presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, é um entusiasta desta agenda que, para Betânia, está longe de ser apenas retórica. Seja pela ética da consequência ou da convicção, as empresas vão ter que seguir este caminho - caso contrário, correm o risco de perder não só consumidores, como investidores e até talentos, afirma. Hoje as pessoas trabalham com propósito e não querem estar associadas a algo que faça mal para o planeta, direta ou indiretamente, diz.

Para
a especialista, do ponto de vista de gestão, Henry Ford fez um trabalho
fundamental e marcou época, trazendo inovação para o sistema produtivo. Mas na
era das mídias sociais, onde as informações são rapidamente compartilhadas e
não existem fronteiras, criatividade vale muito mais do que produtividade.




