Por Rayanne Azevedo | DW Brasil
Apostando
em uma retórica moralizante e permeada por referências religiosas, o presidente
Jair Bolsonaro se lança à corrida pela reeleição tentando repetir o apoio do
eleitorado cristão e conservador que recebeu em 2018.
Naquele
ano, os quase 70% dos votos evangélicos que recebeu no segundo turno, segundo
cálculos feitos com base em dados do Instituto Datafolha, foram apontados
por analistas políticos como decisivos para a vitória do chefe do
Executivo.
Apesar
desse apoio considerado decisivo e de os evangélicos serem hoje mais de
30% da população, segundo estimativas, não é apenas a esse grupo que o
presidente acena. Maioria no Brasil, católicos também estão no radar do
mandatário.
Nos
últimos meses, Bolsonaro tem ido a eventos evangélicos com frequência quase
semanal. Só em julho, esteve em diversos encontros com fiéis no Rio de Janeiro,
em Minas Gerais, São Paulo, Maranhão, Ceará, Espírito Santo e Rio Grande do
Norte. Ao longo da corrida ao Planalto, o presidente também deverá
participar por vídeo, com entradas ao vivo, de cultos organizados por
lideranças evangélicas.
A
tática se repete, embora em menores proporções, junto ao eleitorado católico.
Em 16 de julho, Bolsonaro leu passagens bíblicas e discursou ao lado de um
padre em Natal (RN) sob o mote "Deus, pátria, família e liberdade". O
lema é semelhante ao da Ação Integralista Brasileira ("Deus, pátria e
família"), movimento de extrema direita ultranacionalista criado nos anos
1930 sob inspiração do fascismo italiano.
No
final de julho, em seu discurso de lançamento de candidatura, Bolsonaro, que se
autodeclara católico e tem o apoio de lideranças de peso do setor
evangélico, fez sete menções a Deus sua esposa, a protestante Michelle
Bolsonaro, o invocou outras 27 vezes no palanque.
Na
ocasião, Michelle apresentou o marido como um "escolhido de
Deus" que tem um "projeto de libertação para a nossa nação",
aconselhou a plateia a não negociar com o mal e foi festejada aos gritos de
"aleluia".
Bolsonaro,
por sua vez, afirmou rezar diariamente um Pai Nosso para que o "povo
brasileiro nunca experimente as dores do comunismo" e antagonizou com seu
principal rival, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao repisar velhas
máximas da cartilha conservadora sobre aborto, drogas e questões de gênero.
Ao
retratar a sua reeleição como uma batalha do bem contra o mal, se
apropriar de Deus como cabo eleitoral e insistir na pauta de costumes,
Bolsonaro indica, segundo especialistas ouvidos pela DW Brasil, qual será a
tônica da sua campanha até outubro.
A
julgar pelos resultados das pesquisas eleitorais mais recentes, a tática pode
estar surtindo efeito ao menos entre o eleitorado evangélico. Números do Datafolha
mostram que, num intervalo de dois meses, Bolsonaro abriu vantagem de dez
pontos percentuais sobre Lula e lidera atualmente a preferência desse segmento,
com 43% das intenções de voto.

Popularidade
de Bolsonaro entre evangélicos possivelmente subestimada
Embora
os dados indiquem uma clara tendência de crescimento da candidatura
bolsonarista entre evangélicos, há quem alerte que o candidato do PL pode estar
tendo sua popularidade junto a esse eleitorado subestimada.
Há
três motivos para isso. O primeiro, segundo Victor Araújo, cientista político e
pesquisador sênior da Universidade de Zurique, é que existe um viés de não
resposta na pesquisa do Datafolha. Alguns eleitores se recusam a participar dos
levantamentos alegando parcialidade do instituto, o que acaba gerando uma
distorção difícil de corrigir.

Bolsonaristas
e antipetistas tendem a responder menos à pesquisa, o que acaba inflacionando
bastante a intenção de voto no Lula", aponta Araújo, autor do livro A
religião distrai os pobres? O voto econômico de joelhos para a moral e os bons
costumes, lançado neste ano.
O
segundo problema é a falta de dados precisos e atualizados sobre a filiação
religiosa dos brasileiros segundo o Datafolha, em 2020, 31% da população era
evangélica. Araújo cita números semelhantes, baseados em projeções feitas com
informações de censos anteriores o último foi realizado há 12 anos, em 2010.
Mas
há quem sustente que a quantidade de evangélicos pode ser maior. É o caso do
pastor Ariovaldo Ramos, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito. Ele
diz que as igrejas pentecostais independentes têm crescido nas periferias em
ritmo muito superior ao das igrejas denominacionais uma evolução superior
mesmo em relação às denominacionais pentecostais, como a Assembleia de
Deus e a Universal , e que o fenômeno está fora do radar dos analistas
políticos.

Estamos
às cegas, estatisticamente falando. Acho que o voto bolsonarista está sendo
subestimado sim",
afirma o pastor.
O
terceiro aspecto problemático é que o Datafolha não diferencia entre
evangélicos pentecostais e não pentecostais. Segundo Araújo, o primeiro grupo é
maior e só cresceu nas últimas décadas, enquanto o segundo segue encolhendo.
Cálculos dão conta de que os adeptos do pentecostalismo seriam hoje 65% em
sua maioria mulheres, negros e pobres.
Esses
mesmos pentecostais, conforme Araújo, tendem a ser muito mais conservadores e,
portanto, mais avessos a candidatos de esquerda, que veem como ameaça à família
e aos valores tradicionais. O antipetismo nessas camadas populares é histórico,
precede o próprio bolsonarismo, e o alinhamento com o presidente acaba
ocorrendo por pragmatismo, a fim de evitar males maiores.
Embora
o aumento recente do Auxílio Brasil às vésperas da eleição possa ter
influenciado a melhora das intenções de voto em Bolsonaro também entre os
pentecostais, Araújo defende que o voto desse eleitor é majoritariamente guiado
por convicções morais prova disso seria a rejeição consistente ao PT mesmo
entre pentecostais beneficiários do Bolsa Família ao longo dos últimos anos.

Para
essa porção do eleitorado, questões relacionadas à moral, essa guerra cultural,
espiritual, tudo isso importa muito mais do que inflação, projeção da economia
e PIB",
argumenta Araújo.

A
força da pauta moral
O
pastor Ramos faz avaliação semelhante. Para ele, se a campanha for conduzida
exclusivamente em cima da pauta moral, a tendência é que Bolsonaro leve o voto
do estrato religioso mais pobre e conservador. Em um país marcado pela
desigualdade social, a religião muitas vezes é a única rede de apoio de
que essas pessoas dispõem.

Evangélicos
têm valores bastante substanciados. Se eles sentem que esses valores são
atacados, eles refluem, mesmo os mais à esquerda", comenta
Ramos. "Os pentecostais, mas também os católicos carismáticos, têm uma
visão maniqueísta do mundo, marcada pela pregação da batalha espiritual contra
o mal. E se você está combatendo o mal, vale tudo".
Para
Ramos, o eleitorado pobre e religioso é sensível à pauta de costumes porque foi
abandonado pelo poder público e está exposto a mazelas de outra ordem, muito
distantes das questões que afligem a classe média brasileira.
Ele
exemplifica seu argumento com a discussão sobre a criação de banheiros unissex.

Os
crentes entram em pânico, dizem que não querem que homem entre no banheiro com
a filha deles. Mas por que eles dizem isso? Porque temos uma cultura do estupro
neste país.
Reduzir tudo à questão econômica é um erro. A fome, a privação, são fatores
determinantes e têm causado refluxo nas linhas bolsonaristas, mas têm limites.
E o limite é a fé, a sensação de se entregar por um bem maior",
afirma. "São outros pressupostos religiosos, deturpados , que
sustentam outro raciocínio".
É
a esse "bem maior" que Michelle Bolsonaro apela quando defende a
reeleição do marido como "cura para o nosso Brasil", afirma Ramos.
A
entrada da primeira-dama na campanha ocorre num contexto de rejeição de
Bolsonaro por parte do eleitorado feminino também entre as evangélicas,
avessas ao tom belicista e agressivo do mandatário.
Professora
do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, a antropóloga
Jacqueline Moraes Teixeira diz que entre as mulheres evangélicas paira um sentimento
de expectativas não cumpridas em relação a Bolsonaro, algo agravado pela
pandemia e pela crise econômica. E é aí que a primeira-dama entra como uma
espécie de avalista do presidente.
O
poder persuasivo de Michelle junto a esse segmento é atribuído à própria
história de vida dela, vista como

uma
mulher que não abandona a família, se converte, supera dificuldades e se casa
com um homem imperfeito, assumindo o compromisso de transformá-lo em um grande
líder",
aponta Teixeira. "A participação da Michelle na campanha torna a
centralidade do discurso religioso algo orgânico na campanha. Para essas
eleitoras, ao votar no Bolsonaro, é como se elas estivessem votando nela",
afirma a antropóloga.
Teixeira
ressalta ainda outros dois medos do eleitorado evangélico que vêm sendo
mobilizados com sucesso pela campanha bolsonarista: a narrativa de que a
liberdade religiosa deles estará sob ameaça em um governo de oposição, e a
ideia de que o chefe do Executivo é alvo de perseguição.
Reeleição
difícil
Há
dúvidas, contudo, sobre se o foco no discurso religioso e moralizador será
suficiente para garantir a reeleição.

Bolsonaro
vai continuar apostando nessa pauta porque não tem outra opção, mas não
acredito que terá o mesmo papel e visibilidade que teve em 2018, porque a vida
das pessoas piorou e elas sabem disso", analisa Ana Carolina Evangelista,
diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião (Iser). "Se
antes o Bolsonaro conseguia se descolar dos problemas do país, hoje, depois de
quatro anos no poder, isso já não é mais possível".
Para
Evangelista, mesmo o apoio maciço de lideranças religiosas ao projeto
bolsonarista de governo não deve ser suficiente para garantir o voto religioso.

Essas
lideranças também esperam para ver para que lado pendem as suas bases. Elas
influenciam, mas também são influenciadas. Não é só um movimento de mão única".
O
antropólogo Juliano Spyer diz ver o eleitorado evangélico ainda muito dividido
e pouco entusiasmado com um eventual segundo mandato de Bolsonaro. Segundo o
Datafolha, 22% não optam nem por ele, nem por Lula 11% aderem a outros
candidatos, 7% pretendem anular o voto, e 4% estão indecisos.

Há
um saturamento da politização da Igreja, e isso é um fator de desgaste para os
fiéis",
comenta.
Já
Araújo diz não acreditar em uma vitória de Bolsonaro por outros motivos, de
ordem matemática: os pentecostais ainda não são numerosos o suficiente.

Se
eles já fossem hoje o que a gente acredita que eles serão em 2040, de 30% a 35%
dos eleitores, muito provavelmente o Bolsonaro venceria, porque dentro desse
grupo a pauta moral tem uma propulsão eleitoral muito forte", afirma.
__________________________________________
Com premiações em nível nacional e internacional, o EM
DESTAQUE reforça o seu compromisso com o bom jornalismo, produzindo diariamente
conteúdo de qualidade, com responsabilidade e que você pode confiar.
Siga o site e as redes sociais do jornal que virou fonte de
notícias do Google
News e que há dois anos disponibiliza conteúdo nos principais tocadores de podcasts:
ED, o jornal local sem fronteiras para a notícia!




