O
bom desempenho do presidente Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições é
resultado de uma combinação de atuação digital e de política tradicional,
avalia Marcos Nobre, presidente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
(Cebrap) e professor do departamento de filosofia da Unicamp.

Bolsonaro
apelou para alguém que sabe fazer política tradicional, que pega recursos de
campanha e consegue transformá-los em mais votos. Junto com isso houve uma
atuação paralela dessa máquina de desinformação e propaganda do partido digital
bolsonarista",
afirma Nobre.
O
pesquisador atribui ainda o sucesso eleitoral de Bolsonaro e seus aliados no
primeiro turno ao "trabalho de base" do "partido digital
bolsonarista", expressão que usa para se referir à militância aguerrida
reunida no entorno do presidente.

A
mensagem bolsonarista entra em grupos de mães, em discussões de grupos
religiosos, de pessoas que procuram emprego redes de solidariedade de todo
tipo".
Em
entrevista à DW Brasil, Nobre analisa também o cenário pós-eleitoral e alerta
para o risco real de uma guinada autoritária no Brasil, caso Bolsonaro vença o
segundo turno.

Vamos
ter um cenário húngaro: com a confiança nas instituições democráticas sendo
minada no primeiro mandato para, num segundo mandato, efetivamente fechar o
regime por dentro",
destaca o autor do livro Limites da Democracia, uma análise da política
brasileira desde as jornadas de Junho de 2013 até os dias atuais.
O
que explica o bom desempenho da direita bolsonarista no primeiro turno?
Marcos
Nobre: Houve uma aliança com a política tradicional com o PL do
Valdemar Costa Neto, PP e Republicanos, além de partidos menores como PTB e
PSC. Bolsonaro apelou para alguém que sabe fazer política tradicional, que pega
recursos de campanha e consegue transformá-los em mais votos. Junto com
isso houve uma atuação paralela dessa máquina de desinformação e propaganda do
partido digital bolsonarista.
É
uma combinação de política tradicional e elementos novos digitais. De um lado,
tem a política tradicional; de outro, interesses mais diretos do partido
digital bolsonarista. Uma estrutura potencializa a outra. Às vezes elas entram
em conflito, mas na maioria dos casos elas se complementam. Um exemplo desse
conflito é a corrida pelo Senado em Brasília: tinha a candidata do PL, que é o
partido de Bolsonaro, mas o partido digital bolsonarista atuou o tempo todo
pela eleição da Damares [Alves, ex-ministra da Mulher, da Família e dos
Direitos Humanos, que foi eleita pelo Republicanos].
Tem
também o poder da máquina partidária e do governo. Bolsonaro é o presidente,
não dá para desconsiderar isso. Isso gera uma potencialização da votação do PL
que é muito impressionante desde 1998 que não tinha uma bancada desse tamanho [no Congresso].
E
por que esse partido digital bolsonarista é eficiente?
O
partido digital bolsonarista atua na esfera institucional, em conjunto com a
política tradicional, mas também está no cotidiano das pessoas. Há muita
fantasia sobre o que é esse tipo de organização em rede partidária, porque as
pessoas acham que são grupos de WhatsApp, Telegram e TikTok só sobre política.
Isso não é verdade.
A
mensagem bolsonarista entra em grupos de mães, em discussões de grupos
religiosos, de pessoas que procuram emprego, que precisam trocar coisas redes
de solidariedade de todo tipo. Os antigos partidos faziam isso, que é conhecido
como trabalho de base e é o que o bolsonarismo faz. Essa é a sua força. Não é
só um partido, uma máquina de desinformação e propaganda que está descolada da
vida das pessoas. De jeito nenhum. Está lá, no cotidiano. E é por isso que
consegue eleger.
E
a esquerda?
O
campo progressista acha que basta chegar nas pessoas e dizer o que é o mundo
ideal que elas automaticamente vão se converter. Não é uma postura de
convencimento; é uma postura de chegar para dar lição. Perderam a tecnologia e
a capacidade de fazer trabalho de base. E fazer trabalho de base é conversar de
verdade. É chegar lá para ouvir, ser escutado, respeitar a posição e saber que
a pessoa, depois de horas de conversa, pode manter a mesma posição que tinha
antes.
Progressistas
quando encontram alguém que não vota no ex-presidente Lula e diz "Lula é
ladrão", viram as costas e vão embora, dizem que não dá para conversar.
Tem que discutir, levar a sério. Se esse é o ponto de partida, não se conseguirá
nunca mesmo convencer ninguém.
O
bolsonarismo age diferente?
O
bolsonarismo faz isso, ele convence aqueles que não estão primeiramente
convencidos, faz trabalho de base. Tem essa diferença. Acho que é uma diferença
grave, porque mostra que o partido digital bolsonarista tem enraizamento e
representatividade na sociedade.
Votar
em Bolsonaro não significa ser autoritário. Pelo contrário. Cerca de 15% do
eleitorado é efetivamente autoritário. É um grupo grande, mas de maneira alguma
chega aos 43% que votaram no Bolsonaro. Colocar todo mundo no mesmo saco é
abrir mão de fazer política.
Caso
Bolsonaro perca a eleição, qual é o futuro dessa extrema direita que ele
personifica?
Bolsonaro,
num primeiro momento, vai ser o líder da oposição porque ele tem a hegemonia do
campo mais amplo da direita. E o tipo de oposição que ele vai fazer é muito
diferente do que já se viu no Brasil, porque é uma oposição que não está
preocupada em ganhar a próxima eleição. Não que ele não queira ganhar, não é
isso. Mas essa não é a preocupação central, então não há limites para o tipo de
oposição que você pode fazer. É uma oposição, em termos democráticos,
totalmente desleal, feroz.
Temos
uma situação hoje em que o campo da direita no Brasil é hegemonizado pela
extrema direita. Vai surgir uma nova direita democrática para disputar essa
hegemonia? Porque se isso não acontecer, teremos um governo que vai ter como
principal opositor a extrema direita, e não a direita. E isso implica um risco
autoritário permanente para o país.
O
que seria essa oposição desleal?
Existem
algumas limitações para uma oposição que é democraticamente leal, que segue as
regras da alternância de poder democrático porque quando ela chegar ao poder,
vai ter que ser capaz de entregar aquilo que criticou no outro. No caso da
extrema direita, como o objetivo não é a democracia, você pode dizer
absolutamente qualquer coisa. Não há limites. O projeto não é meramente
eleitoral. A eleição é só uma escadinha para chegar ao seu objetivo, que é
destruir a democracia nesse esquema característico do autoritarismo da década
de 2010, que são autoritarismos pela via eleitoral, e não mais golpes clássicos.
E
se o Bolsonaro for reeleito, o que esperar?
Vamos
ter um cenário húngaro, seguindo esse modelo estabelecido pela Hungria, [nos
moldes dos] autoritarismos da década de 2010: com a confiança nas instituições
democráticas sendo minada no primeiro mandato para, num segundo mandato,
efetivamente fechar o regime por dentro.
Como?
Primeiro,
assumindo o controle da maioria da suprema corte no caso, do Supremo Tribunal
Federal. Já tem uma emenda na Câmara para aumentar de 11 para 15 o número de
ministros. Aumentando de 11 para 15, o Bolsonaro já indicou dois, indicaria
mais quatro [mais os sucessores de Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, que se
aposentam em 2023, totalizando oito ministros], e ele teria maioria no STF. Na
sequência, você faz uma reforma legislativa que te dá maioria parlamentar mesmo
você não tendo a maioria dos votos.
Você
começa a impor restrições para aquelas parcelas do eleitorado que não fazem
parte do seu bastião de votos por exemplo, os mais pobres ; faz um projeto
de centralização do controle das polícias; mantém elementos tipicamente
ditatoriais, como o orçamento secreto; oficializa uma polícia secreta; asfixia
a imprensa; começa a restringir as críticas de todos os lados. Vai sufocando as
pessoas cada vez mais na universidade, na imprensa e tem um fechamento
progressivo do regime por dentro.
Isso
já vem sendo preparado no primeiro mandato: sete em cada dez brasileiros têm
medo de emitir as suas opiniões, medo de violência. Isso já é uma vitória
enorme do bolsonarismo, que quer infundir nas pessoas o medo de se expressar
livremente.
_________________________________
Com
premiações em nível nacional e internacional, o EM DESTAQUE reforça o seu
compromisso com o bom jornalismo, produzindo diariamente conteúdo de qualidade,
com responsabilidade e que você pode confiar.
Siga
o site e as redes sociais do jornal que virou fonte de notícias do Google News e que há dois anos disponibiliza
conteúdo nos principais tocadores de podcasts: ED, o jornal local
sem fronteiras para a notícia!
Galeria de fotos














