Foto manchete: Kirvin Larios @etica
A América Latina atravessa um período de profundas transformações políticas, sociais e tecnológicas, mas continua confrontada por problemas que marcaram diferentes momentos de sua história. A concentração de poder, as disputas ideológicas, as interferências estrangeiras e as restrições às liberdades democráticas permanecem no centro das preocupações regionais. A esses desafios soma-se um fenômeno de proporções inéditas: a capacidade das plataformas digitais de influenciar o debate público, disseminar informações falsas e interferir na percepção dos cidadãos sobre a realidade.
Esse cenário foi analisado por cinco jornalistas latino-americanos durante o Festival Gabo 2026, realizado em Bogotá, na Colômbia. O encontro, promovido em 24 de julho, reuniu representantes do Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Cuba para discutir as contradições de um continente que experimenta mudanças importantes sem conseguir superar determinadas fragilidades históricas.
Participaram da conversa a brasileira Natalia Viana, a venezuelana Luz Mely Reyes, a colombiana Diana Calderón, a peruana Nelly Luna Amancio e o cubano Norges Rodríguez. A mediação ficou a cargo do jornalista espanhol Gustau Alegret. O debate integrou a programação dedicada à análise das transformações geopolíticas e dos desafios contemporâneos da atividade jornalística.
Um dos principais pontos de convergência entre os participantes foi a percepção de que a disseminação de informações enganosas deixou de representar apenas um problema de comunicação e passou a constituir uma questão diretamente relacionada ao funcionamento das instituições democráticas.
Para Natalia Viana, diretora executiva da Agência Pública, o aspecto mais preocupante desse ambiente é a concentração de influência nas mãos de grandes empresas de tecnologia, especialmente aquelas sediadas nos Estados Unidos. Essas companhias controlam ferramentas pelas quais milhões de pessoas se informam, discutem acontecimentos e constroem suas opiniões políticas.
Na avaliação da jornalista brasileira, a dimensão alcançada por essas plataformas modificou profundamente as relações entre informação, poder econômico e participação democrática. A circulação de conteúdos manipulados pode favorecer determinados interesses políticos, enquanto os critérios utilizados para ampliar ou restringir sua visibilidade permanecem, em grande medida, submetidos a decisões empresariais.
Viana também destacou a responsabilidade dos próprios veículos de comunicação. Ao reproduzirem narrativas enganosas sem a necessária contextualização, jornalistas e organizações de imprensa podem contribuir involuntariamente para aumentar o alcance de campanhas de desinformação.
A brasileira defendeu a necessidade de uma regulamentação mais rigorosa das plataformas e relacionou a concentração de poder tecnológico às crescentes disputas pela influência política e econômica sobre os países latino-americanos.
A dificuldade de combater informações falsas também foi abordada pela colombiana Diana Calderón. Para ela, existe uma desigualdade fundamental entre a velocidade de circulação de conteúdos nas redes sociais e o tempo exigido pelo trabalho jornalístico responsável.
Enquanto uma publicação enganosa pode atingir milhares de pessoas em poucos instantes, a apuração de um acontecimento depende da verificação de documentos, do confronto de versões e da consulta a fontes confiáveis.
Essa diferença cria uma desvantagem operacional para o jornalismo profissional, particularmente em momentos de grande tensão política, quando conteúdos emocionais e discursos simplificados encontram terreno favorável para alcançar grandes públicos.
Calderón também chamou a atenção para a necessidade de reconhecer as particularidades de cada país e evitar interpretações que reduzam disputas políticas complexas a uma oposição permanente entre direita e esquerda.
Na Colômbia, a transição entre o governo de esquerda de Gustavo Petro e a administração de direita que assumiu em agosto de 2026 evidenciou uma mudança no cenário político nacional. A jornalista relacionou o surgimento de novas lideranças a questões estruturais ainda presentes no país, como a desigualdade social e o narcotráfico.
A discussão sobre democracia também ultrapassou os limites da comunicação digital e alcançou temas relacionados à soberania nacional, à repressão política e à responsabilidade dos governos diante de violações de direitos fundamentais.
A venezuelana Luz Mely Reyes manifestou preocupação com a ausência de posicionamentos regionais consistentes diante de situações que, em sua avaliação, representam graves ameaças à democracia.
Ao abordar a realidade de seu país, a jornalista criticou a condução do processo político venezuelano e questionou tanto as ações das autoridades nacionais quanto a postura de governos estrangeiros. Reyes também lamentou o que considera uma reação insuficiente de países latino-americanos diante das crises enfrentadas por Venezuela, Cuba e Nicarágua.
Para ela, a defesa dos princípios democráticos exige posicionamentos claros, independentemente da orientação ideológica dos governos envolvidos. A ausência de respostas diante de violações de direitos pode contribuir para sua normalização.
A jornalista também advertiu sobre os efeitos da polarização no exercício da profissão. Embora os confrontos entre posições extremadas frequentemente atraiam audiência, a transformação permanente das divergências em conflitos pode enfraquecer o debate público e comprometer a capacidade de análise dos profissionais de imprensa.
A situação cubana recebeu atenção especial na intervenção de Norges Rodríguez. O jornalista descreveu os obstáculos enfrentados pela imprensa independente em seu país e destacou as consequências de décadas de restrições ao pluralismo político e à liberdade de expressão.
Rodríguez lembrou que o controle estatal sobre os meios de comunicação se consolidou após a chegada de Fidel Castro ao poder. Segundo ele, a expansão do acesso à internet abriu novas possibilidades para o jornalismo digital independente, embora também tenha ampliado a exposição da sociedade cubana aos efeitos da polarização e das mudanças nos mecanismos de distribuição de conteúdo.
O profissional questionou ainda a tendência de interpretar a realidade cubana exclusivamente a partir do antagonismo histórico com os Estados Unidos. Em sua avaliação, a influência de potências estrangeiras sobre a ilha deve ser examinada de maneira mais ampla, considerando diferentes períodos e interesses geopolíticos.
Rodríguez argumentou que as pressões internacionais não podem servir de justificativa para restrições às liberdades civis ou para violações de direitos humanos. Também criticou a falta de respostas mais firmes de governos latino-americanos à ausência de eleições multipartidárias competitivas em Cuba.
Apesar da gravidade dos problemas apresentados, o encontro também abriu espaço para discutir mudanças positivas na sociedade civil e na atuação dos profissionais de comunicação.
A peruana Nelly Luna Amancio, diretora e cofundadora do veículo investigativo OjoPúblico, destacou a capacidade de articulação desenvolvida por organizações sociais e iniciativas de jornalismo independente.
Na sua avaliação, uma das diferenças mais significativas em relação a períodos anteriores da história latino-americana está na formação de redes de colaboração entre jornalistas, comunidades e organizações que atuam na defesa de direitos.
A existência de movimentos indígenas organizados, coletivos comunitários e estruturas de cooperação entre profissionais de diferentes países representa, segundo ela, uma possibilidade de enfrentar desafios que ultrapassam as fronteiras nacionais.
Luna Amancio também propôs uma reflexão sobre os próprios fundamentos das democracias latino-americanas. A jornalista observou que determinados modelos de desenvolvimento econômico foram historicamente acompanhados por conflitos territoriais e pela exclusão de populações vulneráveis.
Para a peruana, compreender as crises atuais exige examinar não apenas os ataques contemporâneos às instituições, mas também as desigualdades que acompanharam a formação dos sistemas políticos da região.
Outro avanço identificado durante o debate foi a ampliação da presença feminina nos espaços de discussão sobre política, jornalismo e democracia. Luz Mely Reyes ressaltou que encontros com mulheres jornalistas de diferentes nacionalidades, experiências e perspectivas conquistaram uma visibilidade que era menos frequente há uma década.
A diversidade de vozes foi apontada como elemento relevante para enriquecer a cobertura jornalística e permitir uma compreensão mais abrangente dos acontecimentos.
As reflexões apresentadas no Festival Gabo evidenciaram que os desafios enfrentados pela América Latina não se limitam à alternância de governos ou à disputa entre projetos ideológicos. Envolvem questões estruturais relacionadas à distribuição do poder, à independência das instituições, às desigualdades sociais e à capacidade das sociedades de exercer seus direitos.
Nesse contexto, o jornalismo permanece diante de uma responsabilidade essencial: investigar os fatos, fiscalizar o exercício do poder, contextualizar informações e oferecer à população elementos confiáveis para compreender acontecimentos que influenciam diretamente a vida coletiva.
A tecnologia transformou os instrumentos de comunicação e acelerou a circulação das notícias, mas não eliminou a necessidade de rigor, independência e compromisso com a verdade factual.
O encontro realizado em Bogotá deixou evidente que, embora as realidades nacionais apresentem diferenças importantes, os países latino-americanos compartilham desafios que exigem atenção permanente. Entre antigas disputas políticas e novas formas de influência digital, o futuro da região dependerá também da capacidade de suas instituições, organizações sociais e profissionais de imprensa de preservar o espaço para a informação livre, o debate plural e a participação democrática.




