Essa
semana o STF condenou os primeiros réus da fatídica tentativa de golpe do dia
08 de Janeiro, na Praça do Três Poderes. E junto com o julgamento, e mais virão
por aí, conseguimos observar e assistir um show de horrores, onde o que
importava mesmo era “like”, curtidas e engajamento em rede social, e nunca a
defesa de seus clientes. Advogados devidamente constituídos usaram a tribuna da
Suprema Corte, para proferir ódio e ataques aos Ministros que ali se
encontravam, uma estratégia nada inteligente se tratando de quem são eles que
julgam os méritos ali apresentados e defendidos. Mas, de nada importava se
tratar de um julgamento onde o réu espera, no mínimo, que seu advogado faça seu
trabalho e, quem sabe, consiga a absolvição, ou pelo menos que se atenue a
pena. Mas o objetivo era outro, e parafraseando Zeca Baleiro, como palhaços do
circo Vostok, a graça era pouca e a pena gigante. O resultado todo mundo já
sabe: os réus foram condenados, e a porteira está aberta - agora parafraseei
Ricardo Salles, que grande bosta! Mas, enfim, a partir de agora novas
condenações chegarão.
O
que pretendo chamar a atenção é como esses advogados conseguiram, em um único
dia, nos dar a medida certa do que assistimos nos quatro anos que antecederam
este governo, e que ainda veremos durante muito tempo uma parte do país ser
nivelada por baixo.
Três
advogados conseguiram retratar com muita fidelidade o pensamento e
comportamento bolsonaristas, e vou fazer isto um a um, para que fique fácil o
entendimento de todos:
O
primeiro se trata do advogado que confundiu alhos com bugalhos, mas ele se
enquadra na espécie muito comum de bolsonaristas - aquele que tenta mostrar um
conteúdo que não tem; o que se acha cientista, empresário, historiador,
filósofo, político e intelectual de direita... tudo isto ao mesmo tempo e, no
final, não sabe de nada, se informa com fakes e interpretações equivocadas e
desonestas. Um pândego de péssimo gosto, aliado com um tom de voz debochado e
soberbo. No seu discurso citou o “Pequeno Príncipe”, como autor de uma frase de
Maquiavel, autor de “O Príncipe”. O garoto que vagava por planetas tentando
preencher sua solidão, na verdade, é obra de Antoine de Saint-Exupéry, um
aristocrata e aviador. Com a cara mais deslavada do mundo, o advogado fala esse
absurdo e faz que não é com ele a tamanha besteira, e se alguém dissesse que
ele estava errado ali na hora, ele diria que era mentira do desavisado que o
tentou corrigir. Do mesmo tipo que lhe manda uma “Fake News”, você aponta a
verdade, e ele diz que não é verdade, e por isto mesmo o filho do Lula é dono
do Google, para poder tentar se infiltrar na cabeça das pessoas e espalhar
mentiras. Esse tipo de bolsonarista foi o que governou o país e que acreditava
que Olavo de Carvalho era filósofo - o mesmo que acreditava que a Terra é
plana. Não faz nenhuma falta!
O
segundo destaque, e vou tentar ser breve, é o advogado que na sua explanação,
aproveitou para contar em detalhes as andanças de seu cliente dentro dos locais
que ele invadiu, e no final, perguntou qual era o problema disto. Ora, depois
de narrar uma invasão de um bem público e sua depredação, assumindo assim a
culpa do réu, o advogado esperava mais o quê? Condenação certa! Esse representa
o bolsonarista que sabe dos crimes cometidos por seu político de estimação, mas
pergunta qual é o problema? Crime mesmo só se for dos outros. É a cara do bolsonarismo,
que finge não ver, por exemplo, que toda vez que a PF chegava perto dos filhos
do ex-presidente, o Delegado era retirado do caso. Ou aquele pano básico para
toda ordem de corrupção encaixado nos empréstimos consignados pela Caixa dias
antes da eleição. Isso sem falar na tentativa de vender presentes dados por
outros chefes de Estado envolvendo até mesmo agentes do glorioso Exército
Brasileiro.
A
terceira, e não menos importante, é o bolsonarista que chora, principalmente
quando percebe que a derrota é certa, e que não tem preparo mínimo para aquilo
que se colocou à disposição. Quem sabe não dá pena nas pessoas, e elas te perdoem.
Mas, vale ressaltar que o choro da advogada não estava só em relação ao
nervosismo e desespero de um caso perdido, mas segundo ela mesma, porque os
membros do STF cumprimentaram os presentes, mas não seguiram um rito que para
ela era fundamental: um cumprimento exclusivo aos advogados. Ué, todos eles não
estavam presentes? O cumprimento a todos e todas, não serviam para eles? São
mais importantes que os outros, a ponto de precisarem de uma reverência
especial? De onde essa gente tira essas coisas?! Ah, já sei: do sonho e
devaneios de que são a nata da sociedade. Faltou apenas um discurso sobre a
importância dos arianos para o resto da Europa. Mas, assim como Jesus, ela
chorou. E sim, saibam que essa é a intenção: se assemelharem às divindades, e
buscarem a qualquer preço o discurso de vítimas de um julgamento político, o
que não é.
Dilma
perdeu seu mandato por algo que, logo depois, foi verificado que não se tratava
de crime, e não chorou. Lula foi preso por um juiz que depois virou Ministro de
quem só consegui ser presidente porque Lula foi preso, e não foi pra frente das
câmeras chorar. Esses sim são casos de julgamentos políticos.
O
que vimos na semana passada se trata, também, do retrato de uma parte da
sociedade brasileira. Sem noção da realidade, sem condição e debater com
qualquer um que estuda o mínimo, ainda mais Ministros da Suprema Corte, e com
uma honestidade seletiva absurda. Com sustentações orais de quinta categoria -
e por isto nós professores prezamos tanto pela necessidade de apresentar
trabalhos na frente da turma toda - dá para notar o nível de profissionais que,
a meu ver, deveriam, por seus comportamentos longe da real atuação de um
advogado, ser punidos pela OAB. Para estes só sobrou uma coisa: a condenação e
a derrota.
___________
Apoie
o Em Destaque seguindo o site e as redes sociais deste jornal que virou fonte
de notícias do Google News, e que há mais de dois
anos disponibiliza conteúdo nos principais tocadores de podcasts. Em Destaque, o
jornal local sem fronteiras para a notícia!