Aos poucos, a população de Miguel Pereira parece estar criando a sua versão da Queda (ou Tomada) da Bastilha. A Tomada da Bastilha simbolizou a manifestação da insatisfação popular contra o Antigo Regime francês. No final do século XVIII, a França possuía um regime baseado no princípio da monarquia absolutista, no qual um rei concentrava todo o poder do Estado. Neste período, a França era governada pelo rei Luís XVI e seu Regime era caracterizado pela divisão social em classes imaginárias nomeadas como estados. Segundo essa ordem, a sociedade francesa era composta por:
Primeiro Estado: correspondia ao clero.
Segundo Estado: correspondia à nobreza.
Terceiro Estado: correspondia ao povo.
Esta divisão social existente na França garantia uma série de privilégios ao Primeiro e Segundo Estado, como doação de terras pelo rei e isenção de determinados impostos. O povo, por sua vez, sustentava todo o peso do estilo de vida da aristocracia francesa com impostos cada vez mais altos.
Há menos de um ano das eleições, o município governado pelo Rei André I, igualmente absolutista, doador de terras e criador de taxas e aumento de imposto, vê sua população se manifestar frequentemente nas redes sociais com postagens de insatisfações diversas, frutos de uma autoavaliação e constatação – nunca é tarde – de que, de fato, só o clero e a nobreza tiveram suas vidas melhoradas. O povo segue com seus problemas de sempre, só que agravados pela ausência do poder público nestes quase três anos de blá-blá-blá. Ruas esburacadas, sem saneamento básico, desemprego, comércio desprestigiado e promessas de projetos – projetos, não: delírios, pois entende-se por projeto algo que tenha planejamento!
Diferentemente da velha França, hoje temos ao lado do povo os Ministérios Públicos, Tribunal de Contas do Estado... que não estão dando sossego à Sua Majestade André I. O rei, generoso apenas aos seus amigos e amigos dos amigos, precisa dar explicações ao TCE sobre as Vagas Rotativas (por que contratou sem licitação, qual estudo feito para se chegar ao valor de R$ 1,50/hora e o que está sendo feito com o dinheiro arrecadado), também sobre irregularidades nas contas da Educação e da Saúde, e nos repasses ao Fundo de Aposentados e Pensionistas. Corre na justiça um processo que requer uma indenização em torno de R$ 30 milhões, no caso da “tomada de assalto” do governo ao Hospital Fundação, que ele chamou de municipalização.
É tanto contrato novo de aluguéis, é tanto desmatamento para construções de condomínios que não são concluídas, é tanta entrega de áreas nobres do município a empresários, é tanto processo no Ministério Público e a iminente reprovação das contas pelo TCE, que já se fala em reais possibilidades de improbidade à Sua Majestade, impedindo sua candidatura à reeleição, o que levaria seu Império à prematura queda. O lado positivo é que isto daria ao povo o status de Primeiro Estado – como de fato o é.
Seja lá o que o futuro reserva ao Império Lusitano, uma coisa é certa: a população miguelense está atenta e não há mais unanimidade no que diz respeito ao próximo prefeito. E, falando no próximo chefe do executivo municipal, seja ele quem for, do jeito que as coisas andam é certo de que este não terá o privilégio de assumir a administração com contas em dia e dinheiro em caixa, como aconteceu na transição passada.
Deus salve Miguel Pereira!