Regina Duarte declara que minorias não terão apoio do governo





31/03/2020 17:59 ( Atualizado em 31/03/2020 18:00) | Miguel Pereira | Colunista |

Fabio Kleine


Bolsonaro ‘governa para todos e todos estão livres pra se expressar, contanto que busquem seus patrocínios na sociedade civil’


Em seu discurso de posse, após um pequeno período de “noivado”, como ela mesma costumava dizer, quando foi “pedida em casamento” pelo Seu Jair, Regina Duarte usou de “todo” o seu talento e fez uma leitura dramatizada. Com um texto demagogo, Regina Duarte disse que seu propósito à frente da secretaria “é pacificação e diálogo permanente”, dando a entender que as relações da pasta com os profissionais da Cultura seria amistosa.

Mas, todo este discurso demagogo caiu por terra quando, em entrevista ao Fantástico, da Globo, disse que “o dinheiro público deve ser usado de acordo com algumas diretrizes importantes, porque é o que população que elegeu esse governo espera dele”. E, quando questionada pelo jornalista Ernesto Paglia, seu ex-colega de emissora, se o governo Bolsonaro não governa para todos, respondeu enfaticamente: “Governa para todos. E todos estão livres para se expressar, contanto que busquem seus patrocínios na sociedade civil. Você não vai fazer filme pra agradar a minoria com dinheiro público”.


Com este posicionamento a atriz se encaixa, confortavelmente, na ideologia do governo, que, segundo o discurso do presidente, as minorias têm de se adaptar à maioria. Conclui-se que o tal viés ideológico, tão propalado por Seu Jair, é deixar as produções que tratam da sociedade marginalizada e discriminada de fora do apoio do governo.


Como se a corrente da extrema direita não governasse com sua ideologia. “Sem viés ideológico”, o bolsonarismo vem perseguindo artistas que se opõem à direção neoliberal e neofascista do governo, em um revanchismo crônico.


Com isto perde o cinema, o teatro, as exposições de arte, a literatura, a dança, as manifestações da cultura popular, a música e todo movimento artístico cultural que vem sendo produzido para um público sempre ávido a receber entretenimento de qualidade.


A Lei Rouanet, tão criticada pelo bolsonarismo, vem provando que muitos apoiadores do governo vinham sendo contemplado, mesmo nos governos anteriores, sem a preocupação de ser seletivo. Ou seja, a Cultura era tratada de maneira democrática, como convém.


Em tempos de bolsonarismo, vemos que a censura volta a nos espreitar, monitorando a produção cinematográfica, cerceando a criação livre, com as nomeações do Capitão de Mar e Guerra Eduardo Andrade Cavalcanti de Albuquerque para a diretoria colegiada e Edilásio Bara, o pastor Tutuca e Verônica Bendler, ligada ao cinema cristão, para dirigir a ANCINE – Agência Nacional de Cinema. Só nos resta saber o que um capitão da Marinha fará na direção colegiada de um órgão que fomenta a produção cinematográfica. Com relação aos outros dois indicados, não é difícil imaginar quais produções serão prestigiadas. Mas, tudo “sem viés ideológico”, claro.

Temos certeza que Dona Regina Duarte cumprirá com suas tarefas, de acordo com os novos “protocolos” do governo de Seu Jair.

Enquanto isto, em Miguel Pereira, o governo deve estar confortável com a iminência de um provável cancelamento de reuniões de conselhos municipais, que já vinham sendo engessados, sem mobilização e sem o mínimo de atuação.


Com isto, perdem o profissionais da cultura que, não se alinhando à proposta ideológica vigente, contribuirão com números às estatísticas do desemprego. Perde o público que fica privado de entretenimento diversificado.


Enfim, são tempos em que não se pode imaginar o que se sucederá às novas ideologias culturais.