Por Helio de
Carvalho
Odiado por uns e amado por outros, o filme O Poço, do estreante como diretor de longa-metragem, Galder Gaztelu-Urrutia, disponível na Netflix, é uma excelente dica para quem não se importa em se deparar com o pensamento crítico e cru sobre a natureza humana, quando se é exposta ao isolamento extremo e à condição desnivelada de sobrevivência.
Em tempos do novo coronavíruas é, sim, possível se fazer uma relação; entretanto, optei em permear o caminho que considero ter sido o escolhido por Urrutia: Deus – religião – homem “caído”.
O longa parte de uma frase que dita o seu conceito: “Existem três tipos de pessoas. As de cima, as de baixo e as que caem”. Eu prefiro acreditar que,
na verdade, não há três tipos e, sim, um só tipo de pessoas que “funcionam” de maneiras diferentes, dependo apenas da condição em que se encontram.
Para quem ainda não assistiu o filme, vale explicar que ele se passa em uma prisão vertical conhecida como O Poço, e é protagonizado por Goreng que faz por conta própria a escolha de ir para o local, com o intuito de parar de fumar. Lá dentro, ele conhece o velho Trimagasi, seu “companheiro de cela”. O ancião explica para o jovem como funciona o dia-a-dia: não há contato com a luz do sol nem possibilidade de se exercitar do lado de fora.
A única ação que ambos têm durante todo o tempo é esperar por uma plataforma de comida que se move para baixo entre os andares, todos os dias. Como Goreng e Trimagasi estão no nível 48 do Poço, eles precisam aguardar que os dois presos em cada um dos 47 níveis acima se alimentem até que os restos cheguem ao seu andar e, assim, sucessivamente.
Preparado no nível zero, o luxuoso banquete fica em todos os níveis por apenas dois minutos antes de descer para o próximo. Nenhum preso pode guardar restos consigo, com o perigo de receber punição. Conforme o tempo passa, Trimagasi explica para o protagonista que nem sempre eles terão com o que se alimentar e que os presos dos andares de cima pouco se importam com quem está abaixo. O único alento e, também o maior medo de quem vive no Poço, é que a cada 30 dias as duplas trocam de lugar aleatoriamente. Quem está no nível um pode ir parar no 147, por exemplo, e quem está no 147 pode ir para o nível um. Esta dinâmica faz com que todos os presos passem pelas mais diferentes situações, o que em alguns casos pode significar atingir o limite que um ser humano pode chegar ao tentar manter a sanidade e a sua sobrevivência passando muita fome.
É uma metáfora sobre os terrores desse sistema, onde cada indivíduo se esbalda durante o seu tempo no topo, enquanto as massas invisíveis no fundo se comem vivas.
Durante sua experiência, Goreng percebe que ninguém é beneficiado na prisão, mas quase todos resistem obstinadamente às mudanças, incentivando cada indivíduo a comer o máximo que puder enquanto estiver em situação favorável.
Uma nova personagem surge, a Imoguiri, que em meio ao caos, acredita que “somente uma solidariedade espontânea pode trazer mudanças”, considerando que se todos se alimentassem com o que apenas foi reservado para si, haveria comida para todos. Mas, como fazer essa mensagem ser notada quando quem tem em abundância apenas quer mais, enquanto os que não têm nada vão se transformando em canibais?
Neste contexto, Urrutia não se polpa em chocar o espectador com cenas que deixariam qualquer fã da franquia Jogos Mortais orgulhoso.
Análise
O Poço traça, a todo tempo, uma relação com a bíblia e a religião cristã. Ele, também, avulta o que chamam de sete pecados capitais: gula, avareza, inveja, ira, soberba, luxúria e preguiça, na medida que passa pelos andares, com cenas chocantes. Usa expressões como messias e mensageiro... E, o mais sutil é o último andar, de número 333. Considerando que há em cada andar duas pessoas, ao multiplicarmos o resultado é 666 – o número bíblico para a besta.
O diretor de O Poço faz questão de mostrar com que perfeição os alimentos são preparados e o requinte com que a mesa é posta. Isto me chamou a atenção ao entender que o Criador é um Deus de abundância e que garante “mesa farta” aos que d’Ele se acercam.
Em dado momento, surge a necessidade de se fazer chegar ao nível zero – seria o céu, onde Deus está e envia sustento para os seus? – uma “mensagem”, mostrando que o “sistema” de distribuição de comida não está funcionando e que, possivelmente, é de erro e não conhecimento de “Deus”.
O fato é que não há erro nenhum na farta distribuição de sustento para todas as 666 pessoas ali confinadas. O que há, de fato, é a ganância, a individualidade, falta de empatia e amor ao próximo, ou seja: ao do “andar de baixo”; e outros sentimentos semelhantes aos apontados pela bíblia pertencer aos seres caídos.
O apóstolo Paulo apresenta como nenhum outro as duas naturezas que há no homem. Ele chama de carne e espírito. Diz, sem meias palavras, que o homem no seu estado carnal é o próprio diabo. Revela que na carne humana habitam todas as obras diabólicas e as enumera, enquanto no espírito do homem estão os frutos do Espírito de Deus. Coube à religião atribuir a seres malignos tudo de ruim que o homem faça, contrariando o apóstolo que foi até o terceiro céu – o nível zero de O Poço – para nos revelar nos níveis inferiores os mistérios de Deus, que se baseia em vida abundante.
Sem dúvida é bem mais confortante pôr a culpa das mais miseráveis condições do homem em um ser invisível, que emerge das profundezas do inferno, do que as admitir como sendo apenas a nossa natureza carnal, animal, bastando apenas sujeitar-nos às privações para que ela se apresente em múltiplas formas, como no filme O Poço.
Quando se vê no “fundo do poço”, o homem tira a vida do seu semelhante para manter a sua; ele estupra, vira um canibal, rouba, engana... E, quando está distante do “fundo do poço” ele se apropria daquilo que não lhe pertence, é egoísta, não ajuda seu semelhante, defeca em quem está abaixo dele – cena que não poderia faltar no filme – e põe a culpa em Deus, pela miséria da humanidade.
O Poço se mostra esperançoso ao considerar que está na próxima geração a missão de fazer com que as coisas melhorem, que está nas mãos de uma criança “a mensagem” que mudará a humanidade. Eu fico com a sabedoria de Paulo!