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Com a vitória de Lula, o Brasil conseguiu frear a extrema direita? | Jornal Em Destaque por Helio de Carvalho em Política

Com a vitória de Lula, o Brasil conseguiu frear a extrema direita?

Raras vezes um político brasileiro experimentou uma volta por cima tão dramática



Com a vitória de Lula, o Brasil conseguiu frear a extrema direita? Classificação

Postado há 4 ano(s) | Rio de Janeiro | Política |

Helio de Carvalho

O líder da centro-esquerda brasileira está voltando ao poder após mais de uma década, mas esta eleição representa muito mais que uma redenção pessoal.

Esse resultado não é uma vitória qualquer, não é um triunfo apenas do Lula; é a vitória de uma ampla aliança democrática brasileira”, afirmou Francis França, redatora-chefe da DW Brasil.  

Lula esteve à frente de uma reação bem-sucedida de parte importante das forças políticas tradicionais brasileiras, com o objetivo de frear o avanço de Jair Bolsonaro e da extrema direita - o grupo político que conseguiu se consolidar na paisagem política do nosso País.

O que a gente não pode esquecer é que mais uma vez o presidente do Brasil foi escolhido em um duelo de rejeições; a rejeição ao Bolsonaro acabou sendo mais alta, mas isto não significa que o Lula terá tranquilidade para governar, pois as forças bolsonaristas conquistaram um espaço expressivo no Senado, na Câmara dos deputados, e elas compõem uma posição que não é nada desprezível”, acrescentou Francis.


O Brasil viveu quatro anos turbulentos com Bolsonaro no poder: constantes ameaças antidemocráticas do presidente, isolamento Internacional, gestão desastrosa da pandemia e várias crises institucionais. Mesmo assim, Bolsonaro ainda exibiu força na reta final da eleição, com votação expressiva, mas acabou sendo o Lula, um veterano com mais de quatro décadas de carreira política, que conseguiu triunfar, em parte por ter conseguido explorar a rejeição ao atual presidente, sem dar chance a concorrentes.

A eleição foi marcada por um duelo de personalidades e projetos políticos antagônicos, isto não deixou espaço para as outras opções. A gente não pode esquecer que todos os candidatos, que tentaram ‘se vender’ como uma terceira via, acabaram ficando pelo caminho”, disse Fernando Caulyt, repórter da DW Brasil.


Lula e Bolsonaro lideraram campanhas que não só contrastavam em conteúdo e visão de País como em estratégia, também. Bolsonaro apostou num discurso que reforçava o fanatismo do grupo político dele, semeando mentiras e medo. Além disto, o atual presidente colocou a máquina pública a serviço dele, injetando bilhões em programas sociais na reta final da eleição. Lula, por sua vez, usou muito a nostalgia em relação a seus dois primeiros governos para falar ao eleitorado:

Quando eu governei de 2003 a 2010, nós fizemos a maior política de inclusão social que a história desse país conheceu; nós geramos 22 milhões de empregos, nós aumentamos o salário-mínimo...”, disse Lula no debate da Band.   Ao mesmo tempo, Lula olhou para além do tradicional eleitor petista, falou em pacificar o país e reduzir as tensões institucionais de quase uma década de crise. “Vocês sabem que eu estou candidato na perspectiva de reconstruir este país”, disse ele em um comício, em São Paulo.


Para Lula, a vitória também tem um significado de redenção pessoal; ele voltará ao poder quatro anos depois de ser barrado pela justiça na disputa de 2018. Depois de passar 580 dias na prisão, Lula não apenas obteve a anulação das condenações, como também ressurgiu politicamente para conquistar, de novo, a presidência.

Raras vezes um político brasileiro experimentou uma volta por cima tão dramática.

Essa ressurreição política do Lula era algo inimaginável há alguns anos e ele ainda reuniu em torno dele o apoio de políticos, empresários e intelectuais de quase todo o espectro político, até adversários históricos. Figuras importantes da política brasileira, que sempre detestaram o Lula, declararam apoio a ele. Elas viram no Lula a melhor opção diante do Bolsonaro, que se dedicou incansavelmente a atacar as instituições democráticas”, Disse Francis.

A rede de apoio reunida em torno de Lula seria impensável até 2018, quando a ascensão da extrema direita implodiu na política brasileira. Entre as várias figuras que declararam apoio a Lula estavam os economistas responsáveis pelo plano real, nos anos 1990; dois ex-presidentes rivais, FHC e José Sarney; e ex-ministros do supremo. Essa frente de apoio contou até mesmo com figuras que antagonizaram abertamente com o PT nas últimas décadas, como Joaquim Barbosa, o ministro do STF que virou símbolo do combate à corrupção nos governos Lula, e Miguel Reale Júnior - um dos autores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff.

Nem todos os nomes optaram por Lula pelo programa do petista ou pela trajetória pessoal, mas sim por rejeição ao bolsonarismo.

O Lula sabia que não poderia vencer apenas com a esquerda nem com tom revanchista, ele deixou claro que pretende governar com esse amplo arco de alianças e o carro-chefe dessa estratégia foi a escolha do Geraldo Alckmin, um ex rival, como vice-presidente”, afirmou Caulyt.

Lula terá 77 anos de idade quando assumir a presidência pela terceira vez, será o presidente mais velho a tomar posse na história do país. Ele já avisou que pretende ser um presidente de um mandato só: “Veja, eu sinceramente não penso em reeleição, eu quero cumprir um mandato com a maior competência possível”, disse o presidente eleito em entrevista ao Canal UOL.


Mas, a idade não é o único desafio de Lula... Ele vai assumir um país castigado por quase uma década de tensões políticas e crise econômica. A extrema direita, que encontrou sua personificação em Bolsonaro, fincou raízes na cena política brasileira e deve ser uma força barulhenta de oposição. A composição do Congresso eleito em outubro, que fortaleceu ainda mais os partidos do chamado centrão, também impõe desafios de governabilidade. Além disto, pairam dúvidas sobre se Bolsonaro vai realmente entregar o poder pacificamente em 1º de janeiro de 2023.

A transição, agora, deve ser barulhenta, pois uma parte importante do Brasil chancelou a agenda de extrema direita do presidente e vai continuar do lado dele. Esse clima tóxico, após a eleição, acaba adiando novamente o trabalho mais importante que o país tenha a fazer, que é o de reconciliação. Para evoluir com a democracia, os brasileiros precisam recuperar a capacidade de discordar sem violência, para construir consensos”, concluiu Francis.

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